“Esse modelo complementar, com mais serviço, é a nossa diferença. Às vezes ele não é tão assim de preço. Temos padaria, carne, confeitaria. É outra experiência”, afirma Augusto De Cesaro, presidente da companhia.
A estratégia nasce de uma trajetória pé no chão.
De Cesaro começou no varejo aos 12 anos, nos anos 1970, no balcão de uma loja familiar. Em 2006, liderou a fusão da Comercial Unida com o Rissul, criando a Unidasul como ela é hoje. Desde então, o grupo cresceu devagar e com estrutura própria: logística, indústria de panificação, hortifruti direto do produtor e transporte interno.
Com sede em Esteio, na região metropolitana do Estado, a Unidasul opera 48 lojas (34 com o supermercado Rissul e 14 com o atacarejo Macromix Atacado) e atende 25 cidades gaúchas. Emprega mais de 7.500 pessoas e fatura cerca de 3,8 bilhões de reais por ano.
Mas mesmo com esses números, insiste em manter um modelo mais artesanal do que industrial.
_“Entregamos mercadoria todos os dias. Não compramos hortifruti no Ceasa, compramos direto. O que foi colhido ontem chega na loja amanhã. Isso muda tudo na percepção de frescor e qualidade”_, diz o presidente.
E segue crescendo. A empresa está fazendo um investimento na ordem de 410 milhões de reais até 2029.
Desse montante, 350 milhões de reais são destinados à abertura de novas lojas, e 60 milhões de reais à modernização das unidades existentes das bandeiras Macromix Atacado e Rissul, com processos de abertura de novas lojas e retrofits já em andamento.
O aporte integra o plano de expansão da companhia no Rio Grande do Sul, que prevê a abertura de cinco novas unidades por ano.
Qual é a história da Unidasul
Antes de ser holding, a Unidasul era balcão. Literalmente.
A história do grupo começa com pequenos negócios familiares em cidades do interior do Rio Grande do Sul — operações simples, mas que dariam origem a uma rede com mais de 7.500 funcionários.
O ponto de virada veio em 2006, com a fusão entre duas empresas locais: a Comercial Unida e a Comercial Rissul.
“Tenho 62 anos e faço a mesma coisa desde os 12. Desde que me conheço, estou atrás de gôndola, prateleira, balcão”, diz Augusto De Cesaro.
O movimento consolidou uma operação que já nascia com forte capilaridade regional — e com uma cultura muito baseada no atendimento.
Mesmo depois da fusão, a empresa manteve a operação descentralizada, com presença forte em cidades médias e pequenas.
Campo Bom, Igrejinha, Três Coroas, Sapiranga, São Francisco de Paula: são locais onde o nome Rissul já circulava antes mesmo da marca Unidasul existir. “Essa capilaridade vem da nossa origem. Essas lojas já estavam lá. Foi um crescimento natural”, afirma o presidente.
O crescimento da companhia foi acompanhado pela criação de uma estrutura própria.
O centro logístico atual, em Esteio, foi inaugurado em 2020, em plena pandemia. A mudança deu escala e eficiência para a operação, com a criação de unidades industriais internas — como a padaria central, que hoje responde por mais de 200 produtos diferentes, entregues frescos todos os dias nas lojas.
A empresa também desenvolveu sua própria transportadora, a Sulbras, e um sistema próprio de processamento e distribuição de hortifruti.
Quais são as estratégias de crescimento
Crescer no varejo não é novidade. Difícil mesmo é crescer mantendo o frescor do hortifruti, a padaria com cheiro de pão quente e o atendimento sem virar número de crachá.
É nessa lógica que a Unidasul tenta operar. A expansão existe — e é constante —, mas o modelo segue distante do padrão Assaí ou Atacadão. A meta da rede é clara: escalar com serviço, não só com preço.
“Esse modelo que só vende volume, sem estrutura de serviço, não é o que buscamos. A gente quer oferecer mais. E isso exige padaria, confeitaria, carne, atendimento”, afirma De Cesaro.
A principal vitrine dessa proposta é o Macromix Atacado, bandeira que representa o braço atacadista da holding — e que está ganhando espaço, mas sem virar maioria. Hoje, são 14 lojas Macromix contra 34 unidades Rissul, voltadas ao varejo tradicional.
A diferença entre os dois modelos está menos na fachada e mais no bastidor. As lojas do Macromix operam como atacarejo, mas recebem insumos e produtos com o mesmo padrão da rede inteira.
“A gente entrega todo dia, de segunda a sábado, em todas as lojas. Inclusive nas menores. Isso permite vender carne com frescor, pão que chegou hoje, torta feita na nossa padaria central”, diz o presidente.
Essa estrutura foi construída a partir de 2020, com a mudança da sede administrativa para um novo complexo em Esteio.
Lá funcionam o centro de distribuição, a indústria de panificação e a transportadora interna, a Sulbras.
A empresa também criou uma área específica para beneficiamento e logística de hortifruti. “Campo Bom, Igrejinha, Três Coroas... estamos em lugares onde o serviço conta muito. E conseguimos manter a operação enxuta e eficiente”, afirma.
O controle sobre a cadeia também permite um diferencial pouco comum no atacarejo: a personalização do sortimento. “A gente escolhe o que vai para cada loja. Não é só volume. O que o cliente vê na gôndola foi pensado. E foi colhido ontem”, diz De Cesaro. Essa lógica dá à Unidasul um grau de fidelidade que grandes redes demoram anos para alcançar.
No Macromix, a proposta não é competir com o menor preço da cidade — e sim com a combinação entre preço competitivo e experiência mais próxima do supermercado. “Às vezes ele não é tão assim de preço, mas entrega muito mais. E o consumidor percebe isso”, reforça o presidente.
Quais são os planos futuros
A Unidasul quer continuar crescendo — mas sem dar salto maior que a perna.
A holding projeta abrir, em média, cinco novas lojas por ano até 2029, numa toada de 410 milhões de reais em receita.
A expansão será dividida entre as duas bandeiras, Rissul e Macromix, com tendência de abertura de mais unidades do braço atacadista, ainda em minoria na operação.
“Como temos mais lojas Rissul e menos Macromix, a tendência é abrir um pouco mais Macromix agora. Mas não vamos abandonar nenhum dos dois modelos”, afirma De Cesaro.
A decisão sobre qual bandeira entra em cada cidade depende do perfil de consumo e da concorrência local. E não há ambição de virar uma rede nacional.
A próxima fronteira é Porto Alegre. O grupo já anunciou a chegada do Macromix à capital gaúcha com três lojas, incluindo a conversão de um antigo supermercado Nacional, na Cidade Baixa.
“Vai ser nossa primeira operação do Macromix na capital. Também vamos abrir na Serra Gaúcha. É um modelo arrojado, mas adaptado ao que a gente acredita”, diz De Cesaro.
O crescimento tem um componente financeiro relevante: a Unidasul não banca sozinha os investimentos. Em vez disso, trabalha com coinvestidores locais. “Temos participação nos investimentos, mas contamos com um investidor. Isso aproxima a operação da comunidade e dilui o risco. É mais sustentável”, explica o presidente.
O valor médio de investimento por loja não foi divulgado, mas o modelo permite padronizar processos e manter controle estratégico, mesmo com aporte externo.
Segundo De Cesaro, o crescimento só acontece se vier com estrutura. “Crescer por crescer não faz sentido. Só vamos onde conseguimos garantir qualidade. Atendimento, frescor, logística. Isso não se improvisa.
Além da expansão, a empresa tem outro desafio importante: preparar a sucessão. De Cesaro, que lidera a Unidasul desde a fusão em 2006, já colocou o tema na mesa. “Estou falando mais dos 20 anos, da sucessão. Foi tudo construído com pessoas. Esse é o legado”, afirma. O processo está em planejamento e deve envolver lideranças internas.
A base dessa transição é a cultura da empresa, com foco em valorização de equipe. Em 2025, mais de 1.700 colaboradores foram promovidos internamente. “Isso mostra que a paixão por servir não está só na parede. Ela acontece todo dia. E quem está aqui sente isso”, conclui.
Este é um trecho original publicado em Exame.com. Leia a matéria completa em link